quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Guardo recordações sem fim


Guardo no passar das estações,
conversas reveladas em segredo.
Faces coladas, no colo de corações,
que na força do amor viveram sem medo.

Guardo agora esta saudade que não se explica,
de sentir no peso dessas memórias… o amor.
De lhes sentir a alma num carinho que por aqui fica,
e que nem a passagem do tempo lhe tirará o fulgor.

Guardo nas minhas diárias contemplações,
sentires, únicos, escondidos debaixo do arvoredo.
Momentos aprisionados às suas próprias expressões,
e que condenam quem os abriga no seu, eterno, degredo.

Guardo recordações sem fim num tempo que replica,
um sentido de complacência que me pincela de côr,
a tristeza do preto e branco que de um estar suplica,
mas que percebe como esse tempo é manipulador. 

Guardo recordações sem fim,
mas não passo de um mero banco de jardim.

Fotografia: Paula Gouveia

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Descalça por ti



O amor é feito de liberdade,
e sendo esta o órgão mais frágil
que existe na nossa concepção,
acredito que é através da verdade
que se encontra o caminho mais ágil
para se chegar aos imos do coração.

E esse que é tantas vezes apunhalado,
ao ponto de se fundir no silêncio da dor
perturbando os fundamentos da alma.
É aquele que perante o mar revoltado,
faz da poesia autênticas prosas de amor
e entrega ao sol a, única, voz que te acalma.

A vida passa e o tempo finge-se amigo,
enquanto a idade vai-nos trespassando.
Mas afinal, ele não passa de um inimigo
que nos ataca ferozmente… escapando.

Pé ante pé, caminhamos para esse abismo,
pintado de azul e com um suave aroma a sal.
Mas se por cá, dermos asas ao erotismo,
voaremos para lá do horizonte existencial.

E se na sensualidade de cada experiência
sentirmos a fragrância da adolescência
no bater destas ondas onde te acolhi…

… acredita que não é dependência,
mas sim um Amor que se revela por si,
e que perante a finitude, se descalça por ti.

Fotografia: Paula Gouveia

terça-feira, 16 de junho de 2015

Reflexos



O teu corpo tornou-se amo perpétuo do meu,
quando as nossas almas se viram ao espelho.
Reflexos de sentires que a Vida nos ofereceu,
num caminho apenas visível a infravermelho.

E nessa frequência onde acercámos o céu,
deixaste em mim, em forma de conselho,
a certeza de que é possível sentir o apogeu,
mesmo que o agora se perca neste quelho.

De pé, jornadeias pelo aperto das decisões,
num tapete que se revela oculto e cintilante.
Alternando entre as bases, seguras emoções,

agradecida pelo luto de se seguir adiante.
No teu silêncio, fotografaste os nossos corações,
para te recordares desse ontem único e aliciante.

Fotografia: Paula Gouveia

quarta-feira, 27 de maio de 2015

À tua espera


O betão desta megalómana perspectiva   
cimenta-me a imagem de te poder escutar.
Tranquila, obstinada e decerto assertiva,
assim te observo através da objetiva
enquanto te sinto o compasso do respirar.

És feminina na génese e neutra na anuência
àqueles que de ti revelam seu coração.
Simpática e acolhedora à primeira aparência,
relevas na abnegação toda a clarividência,
que alenta por esses poros de compaixão.

E aqui estou eu, de perna cruzada, à tua espera,
num corpo, presente ausente, pintado a invisível.
Meus sonhos beijam-te e atingem a estratosfera,
ao trepar por essa camada numa apetência sincera,
aguardando por explodir nesse aroma aprazível.

Sei que não me vês, mas estou a teu lado,
num banco de madeira, silenciosamente vazio. 
Observo-te, pela reminiscência aprisionado,
e afago-te a alma num piscar de olho, calado
por um apreço que me provoca um eterno calafrio.

Fotografia: João Santos

terça-feira, 12 de maio de 2015

A subtileza do teu sabor


Percorro as curvas dessa silhueta,
apertando o nó a essa tira de tecido.
Encosto-me, fechando-me em chaveta,
intersectando o teu cheiro incendido.

Do nada penetro-te a alma do poeta,
fazendo-te salivar pelo prazer merecido.
Arquejante, desejas dominar a ampulheta,
querendo parar este momento destemido.

O meu toque captura um poder angelical,
elevando-te perante o olhar do senhor,
nessa noite onde, no altar, te tornarás a tal.

Por agora, imagino a subtileza do teu sabor,
nas sombras de uma fotografia original,
ansioso por te oferecer o meu melhor.

Fotografia: Rui Coelho

Cais


Esperei.
Desesperei.
O tempo nada era,
perante a dor da tua espera.
Mas eu esperei.
Oh! Se esperei.
Mas a tua alma não vinha,
deixando a minha sozinha.
O tempo, outrora dado,
passava lento e amargurado,
até se sentir abandonado.
Mas a tua alma não vinha,
ao encontro da minha.
Numa vontade conveniente,
de quem cala consente,
vivendo numa morte dormente.
E eu continuei a esperar,
acreditando nesse amar,
que tudo me soube tirar.
Amparado por uma asa aleijada,
fiz da esperança minha aliada,
esperando por tudo e por nada.
Ao longe, imaginava-te perto.
E do mar fazia o deserto,
desse oásis a peito aberto.
E assim ficámos nós,
afastados por um adeus atroz,
que de mágoa quase me calou a voz.
Mas se pensas que vens e vais,
fica sabendo que não espero mais
pela tua chegada ao cais.

Fotografia: João Santos

terça-feira, 28 de abril de 2015

Nunca deixes de sonhar


Nunca deixes de sonhar,
dizias nesse sorriso de menina.
Numa simpatia que sabe libertar,
qualquer tristeza da sua toxina.

Tens uma amabilidade fora do normal.
Cativante na sua forma de estar.
Que alimentada por uma beleza natural,
seduz o mais reservado olhar.

Precisava de uma cartolina,
para descrever esse sorriso boreal.
Uma folha é nada para descrever a sacarina,
que imana dessa, bela, expressão facial.

E assim te descrevi, na suavidade deste expressar,
o impacto que esse sorriso causa de surdina,
naqueles que baralham o imaginário com o real.
És alguém que tem no sorriso a força brutal,
de conseguir injectar a vida de adrenalina,
naqueles que, nos teus lábios, se deixam voar.

Nunca deixes de sorrir,
respondo-te nas palavras que compõem este verso.
Nunca deixes dessa jovialidade transmitir,
por mais que o teu sorriso se torne disperso.

E no dia que o sentires controverso,
lembra-te que ele é capaz de magnetizar,
qualquer observar que te esteja a descobrir.
Digo-to, porque aprendi a escutar este sentir,
que me diz que esse sorriso tem a força do universo,
e que me pede para te exigir que nunca deixes de sonhar.