quarta-feira, 30 de setembro de 2015

O mar testemunhou


O mar testemunhou,
o amor no seu estado puro,
preso nas redes da razão.
Vagas de ondas de paixão,
que nunca derrubarão o muro,
que ergui para te mostrar quem sou.

O mar testemunhou,
a timidez de um sol matinal,
escondido nos rochedos coloridos.
Gaivotas entoavam nos seus bramidos,
notas de uma simplicidade musical,
inspiradas por um amor que as beijou.

O mar testemunhou,
o teu silêncio e confidência,
enquanto te lia o passado num papel.
A brisa, sorrindo, eriçava-te a pele,
para que te sentisse, em consciência,
dando-te em amor, um calor que te abraçou.

O mar testemunhou,
momentos únicos e apaixonados,
no reboliço de uma toalha estendida.
Partilhas que nos tocarão para a vida,
pela intensidade de segredos partilhados,
e pelo carinho com que o silêncio falou.

O mar testemunhou,
o que areia nunca lhe revelou.
O mar testemunhou,
um Amor que só a ti te dou.

O mar testemunhou,
a entrega do sol no sorriso que este rapaz lhe revelou.

Fotografia: Paula Gouveia

Abraço-te


Abraço-te naquele abraço,
que só a ti te compete sentir.
Abraço-te naquele amasso,
que nos faz, simplesmente, existir.
Abraço-te, sem medo do cansaço,
pois é em ti que quero fluir.
É em ti que reside o último pedaço,
que obriga o meu ser a não desistir.
Abraço-te, sem medo do embaraço,
pois foi contigo que aprendi a submergir.
Foi contigo que ao amor dei espaço,
mesmo que de frio me insistas cobrir.
Abraço-te naquele abraço,
que só em ti o posso sentir.

Fotografia: Paula Gouveia

Caminhar sob as nuvens


Procuras nesse caminhar sob as nuvens
desatar-te de nós que te prendem.
Vives bloqueada nesse amparo onde deténs
solas plásticas, que o teu caminhar impedem.

Vives equilibrada num desequilíbrio constante,
pregada a uma parede incauta ou no bolso da sua algibeira.
Sujeitas-te ao passar das estações de um tempo errante,
Esperando, que tal como as nuvens, esta apatia se torne passageira.

Já te sentes assim há tanto, que já te é fácil suportar
qualquer tipo de abuso,  devido a essa consentida obrigação.
Sem te poderes mexer, permites que tudo em ti se possa pendurar,
ignorando quem te usa, que és uma linha de alta tensão.

E assim permanecerás tu, observando o passar da vida,
numa vontade própria, imprópria para quem te quer restringir.
Nos que por ti passam, vais dando choques como contrapartida,
e mesmo que não os mates, acabas por a sua força vital reduzir.

Mas continuas, fixa entre dois pontos, nesta ilusão caminhando,
através de uns sapatos já gastos de tanto te magoarem os pés.
Daqui! A coragem permite-me através destas palavras te ir dando
a carga possível, para que te sintas, elétrica, como realmente és.

Fotografia: Paula Gouveia

Ela já não está aqui.


Sabes… esqueci-me de te perguntar algo!
A mente vagueia e fica sempre tanto por dizer.
Eu sei. Sou assim. Um mero poeta fidalgo,
que na arte do falar, acaba sempre por se esquecer.

É a tua voz. Encanta-me. Faz-me perder o norte.
Não sei o que te diga, mas deixas-me sempre assim.
Neste pensar azarado, porém bafejado pela sorte,
daquela que só conhece, quem sente um amor sem fim.

Olha, fica para outras núpcias, se em sonhos, te voltar a escutar.
Eu sei. Sou assim. Utopista. Mas é tudo porque gosto muito de ti.
Tanto que vim aqui na esperança de te poder encontrar.
Mas não estavas. E o banco vazio, chorou-me: Ela já não está aqui.

Fotografia: Paula Gouveia

Guardo recordações sem fim


Guardo no passar das estações,
conversas reveladas em segredo.
Faces coladas, no colo de corações,
que na força do amor viveram sem medo.

Guardo agora esta saudade que não se explica,
de sentir no peso dessas memórias… o amor.
De lhes sentir a alma num carinho que por aqui fica,
e que nem a passagem do tempo lhe tirará o fulgor.

Guardo nas minhas diárias contemplações,
sentires, únicos, escondidos debaixo do arvoredo.
Momentos aprisionados às suas próprias expressões,
e que condenam quem os abriga no seu, eterno, degredo.

Guardo recordações sem fim num tempo que replica,
um sentido de complacência que me pincela de côr,
a tristeza do preto e branco que de um estar suplica,
mas que percebe como esse tempo é manipulador. 

Guardo recordações sem fim,
mas não passo de um mero banco de jardim.

Fotografia: Paula Gouveia

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Descalça por ti



O amor é feito de liberdade,
e sendo esta o órgão mais frágil
que existe na nossa concepção,
acredito que é através da verdade
que se encontra o caminho mais ágil
para se chegar aos imos do coração.

E esse que é tantas vezes apunhalado,
ao ponto de se fundir no silêncio da dor
perturbando os fundamentos da alma.
É aquele que perante o mar revoltado,
faz da poesia autênticas prosas de amor
e entrega ao sol a, única, voz que te acalma.

A vida passa e o tempo finge-se amigo,
enquanto a idade vai-nos trespassando.
Mas afinal, ele não passa de um inimigo
que nos ataca ferozmente… escapando.

Pé ante pé, caminhamos para esse abismo,
pintado de azul e com um suave aroma a sal.
Mas se por cá, dermos asas ao erotismo,
voaremos para lá do horizonte existencial.

E se na sensualidade de cada experiência
sentirmos a fragrância da adolescência
no bater destas ondas onde te acolhi…

… acredita que não é dependência,
mas sim um Amor que se revela por si,
e que perante a finitude, se descalça por ti.

Fotografia: Paula Gouveia

terça-feira, 16 de junho de 2015

Reflexos



O teu corpo tornou-se amo perpétuo do meu,
quando as nossas almas se viram ao espelho.
Reflexos de sentires que a Vida nos ofereceu,
num caminho apenas visível a infravermelho.

E nessa frequência onde acercámos o céu,
deixaste em mim, em forma de conselho,
a certeza de que é possível sentir o apogeu,
mesmo que o agora se perca neste quelho.

De pé, jornadeias pelo aperto das decisões,
num tapete que se revela oculto e cintilante.
Alternando entre as bases, seguras emoções,

agradecida pelo luto de se seguir adiante.
No teu silêncio, fotografaste os nossos corações,
para te recordares desse ontem único e aliciante.

Fotografia: Paula Gouveia