Escrita, que escutando as circunstâncias da vida, reflete os meus estados de alma. Escrita Autónima e Ortónima, que utilizo para expulsar a minha loucura interior.
quarta-feira, 30 de setembro de 2015
De amor desenhei a minha cruz
Já não ouço o som do vento,
a indicar-me o tal caminho.
Nem nas falas que invento,
quando contigo falo sozinho.
Na quinta, pela última ceia,
rodeei-me de amigos à mesa.
Na sexta, dei ao ataque boleia,
e fiz da familia a minha defesa.
Já não ouço nada do que sinto,
nestes tímpanos estilhaçados.
Mas vejo um coração extinto,
no sangue destes olhos magoados.
E se de amor desenhei a minha cruz,
da sua dor recuperei para a vida.
Incompleto, procurarei encontrar a luz,
que me (que te) indique a verdade sentida.
E assim, acordei, hoje, num tempo dormente,
que deixou de correr, de fora para dentro.
Sem paz, seguirei apregoando lentamente,
fazendo do amor e da esperança o meu epicentro.
Poesia sem fim
Não sei o que te hei de escrever,
mas esta mente não para de falar.
Ela insiste que eu tenho de te dizer,
que por mim deixarás de chorar.
E mesmo que me perturbes o sonhar,
desejo-te o melhor e odeio ver-te sofrer.
Pois se de dia me assaltas o pensar,
de noite raptaste-me o adormecer.
Espero que hoje seja o ponto de retorno,
aos tempos de paz, amor e harmonia,
porque assim, não aguento nem mais um dia.
E por querer um amanhã sem transtorno,
dar-te-ei tudo o que já deixaste em mim:
Amor, Vida e toda esta Poesia sem fim.
Estupidez visceral
A estupidez mascarada de intelectualidade,
atrai... e silenciosamente torna-se viral.
Ela tem uma relação promiscua com a vaidade,
despertando laivos de um narcisismo fecal.
E se a presunção de inteligência é, em verdade,
uma prova de estupidez que nos pode ser fatal.
Arrisco a dizer que tenho mais do que uma amizade,
que vive num Eu consumido por uma doença visceral.
Vivem numa cruzada constante de exultação
de serem, aqui ou ali, falados, ouvidos ou lidos,
expurgando carências de cuidados obstruídos.
De ilusão, refugio-me neste esquissos feridos,
tendo pena que a estupidez como vocação,
apadrinhe tais intelectos com tão fraca reputação.
Entre nós
Quando os olhos inalam amor,
as fotografias tornam-se reais.
Com eles perpetuamos o valor
de momentos doces e intemporais.
E neste, onde souberam compor
a harmonia em memórias visuais,
fizeram do carinho o fio condutor
para um abraço de braços faciais.
As palavras que use, são tuas dentro de ti.
E isso rouba-lhes a verdadeira definição
do que realmente te desejo dizer.
Pela saudade, embaraçado, deixo-te aqui
a perpetuidade do meu, vexado, coração,
num soneto curto demais para tanto ser.
Fotografia: Paula Gouveia
O poeta escreve e o fotógrafo executa
O poeta escreve e o fotógrafo executa,
por entre pilares que balizam o céu.
Um tem a partitura e o outro a batuta,
que tantos identifica no destapar do véu.
O poeta finge fingir enquanto se revela.
O fotógrafo capta essências (até as fingidas).
Um, escreve momentos no olhar de sentinela.
O outro tudo vê no dedilhar de ambas as vidas.
Duas solidões. Distintas Paixões. A mesma luta.
Talvez… o querer alcançar o intangível.
Escrevem imagens, sem qualquer disputa,
captando nas palavras a pureza do absorvível.
O poeta expõe-se sem medo, que a fivela
do sofrimento lhe martirize as mágoas feridas.
O fotógrafo faz do momento a sua tela,
registando instantes de certezas contidas.
Fotografia: Paula Gouveia
Soterrada nos escombros de quem sou
Soterrada nos escombros de quem sou,
sinto que me perdi da liberdade individual.
Permiti que a que luz que outrora brilhou,
se tenha apagado pela trepidez mental.
Soterrada nos escombros de quem sou,
escrevo para sair desta prisão intelectual.
Luta diária que, de um todo, racionalizou
a irracionalidade deste ardor emocional.
Soterrada nos escombros de quem sou,
prendi-me psicologicamente numa teia,
amestrando a alma numa linear apneia.
Soterrada nos escombros de quem sou,
perdi a coragem de voltar, de novo, a ser
aquela que outrora fez, por te pertencer.
Fotografia: Rui Coelho
Perversa ubiquidade
Na multiplicidade deste corpo desagregado
pela privação da única luz que o (i)lumina,
brilha um farol pelas estações desenhado,
indicando um caminho através da neblina.
Percurso esse, paralelo a um mar salgado,
que desagua no abraço de uma marina.
Sigo-o, cogitando que tenho de ceder à razão,
e libertar a alma de uma perversa ubiquidade.
Decido pausar, ofertando brilho à escuridão,
numa clonagem que burla o luzir da saudade.
A esse carecimento que me tolda a disposição,
elevo meu espírito para lhe despir a identidade.
Fecho os olhos e capto o momento da verdade,
num movimento que de tantas vezes reiterado
acabou por fazer de ti a minha fadada sina
num prazer que me enlouqueceu o coração.
Com as palavras, fotografo a espontaneidade
enquanto fantasio teu corpo de fogo escaldado.
De volta à escuridão, sou esmurrado pela rotina
que me abana, mas me mantém os pés no chão.
Fotografia: Paula Gouveia
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