quarta-feira, 15 de junho de 2016

A memória é um silêncio com esperança


A memória é um silêncio com esperança
que bate colérica nas muralhas da mente.
Tal como o mar, ela desgasta e avança,
levando, sem piedade, tudo à sua frente.

As fendas estão à vista de toda a gente
encalhadas nesse pontão da lembrança.
Ao longe vejo um amar inconsequente
a massacrar uma rocha alheia à mudança.

Mas se amar é adormecer na tua alma,
apesar de na minha a tua acordar calma,
então que se sonhe no frio da realidade.

Porque a dor maior que a de esquecer,
um Amor, é aquela que nos faz perder
o que se julgava ser a autêntica Amizade.


Fotografia: Paula Silveira Costa

sábado, 4 de junho de 2016

Turva existência


Existir numa turva existência
(passe o, vicioso, pleonasmo)
é ter de abraçar o marasmo
num trilho de falsa aparência.

Só ou cingido de um vil sarcasmo
sigo pela artéria da consciência.
Dando à Vida, na paz da cedência,
oxigénio para respirar entusiasmo.

O elo mais fraco, sempre, serei eu
por mais força que busque à raiz
dos beijos que a floresta nos deu.

Sem sol... perco a energia motriz.
Suspirando, neste cenário breu,
por um instante que me faça Feliz.


Fotografia: Paula Silveira Costa

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Perfeito vazio



Os dias passam e nunca mais vejo,
O dia em que me irei ver livre de ti.
Sinto-te repulsa apesar do despejo
que, de ti, dou à mente, aqui ou ali.

E se no cansaço, te alento no bocejo,
na união de um nós uno, eu te aboli.
Resignado! Vivo para além do desejo
e fortaleço o Ser que me colocou aqui.

E se o mal vem da genética que herdas
deve ser triste viver nesse perfeito vazio,
déspota, que nos causou tantas perdas.

Cego, nesse tão teu galopante fastio,
acabas por não passar de um merdas,
seu neoplasma asqueroso e doentio.


Fotografia: Paula Silveira Costa

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Há dias assim


O sonho é a futilidade do limiar
para o abismo do subconsciente.
É uma nuvem na solidão do mar
que vagueia no silêncio da mente.

Sem sol, deixei de querer sonhar
neste lugar nebuloso e abstinente.
Inerte! cheiro a brisa do tempo passar
embriagando a alma num olhar ausente.

Mas estes são os dias em que se cresce.
Os dias que transparecem a dor do fim
num momento que nos isola e adoece.

Dias que deves dizer à vida que estás afim
e na gratidão desse amor que não desvanece
exarar no pontão da memória: Há dias assim.



Fotografia: Paula Silveira Costa

segunda-feira, 11 de abril de 2016

A sedutora luz da bonança


Sinto que é no silêncio que me lês.
Na penumbra dessa dor que se cala.
Escuto de ti gritos zelosos de surdez,
disfarçados nesse silêncio que fala.

Mas compreendo-te a falta da nitidez
que te ciosa a alma e que tanto te rala.
Não percebendo tu que essa insensatez
te consome nesse ciúme que te embala.

Valoriza quem te acompanha na viagem,
e liberta-te dessa detenção da lembrança.
Acorda! Sai dessa dispneizante fuselagem,

e volta a respirar a sedutora luz da bonança.
Ama! Respeita quem não vive à tua imagem,
e estima, olhando para a vida com esperança.

Fotografia - Paula Silveira Costa

terça-feira, 5 de abril de 2016

Sentes o tempo na ferrugem das vigas


Sentes o tempo na ferrugem das vigas,
enquanto o olhas de soslaio, pensativa.
Focas-te na lente que regula as intrigas,
e diminuis a distância da expectativa.

Não, és de todo, como as outras raparigas.
Transformas-te perante a alma da objectiva.
Tens personalidade, não vais em cantigas,
e seduzes a vida sem quaisquer tiques de diva.

O tempo! esse... alicerçou na nossa memória,
momentos, que tal como este que descrevo,
serão a base de toda esta intemporal história.

Acredita. O ontem será um dia de relevo,
se fizeres do hoje a tua, breve, dedicatória
ao amanhã que desse olhar tanto devo.

Fotografia - Paula Silveira Costa (Página My Eyes)

Desdobra a mente



Ambulo, constantemente, de luvas postas
para não deixar quaisquer impressões digitais.
Nelas… apreendo o peso da Vida às costas
suportando, em dor, nossas almas surreais.

Resisto, na procura das corretas respostas,
forçando a palma à desconfiança dos demais.
Das suas trepidezes faço-as de supostas,
e foco-me nas nossas memórias intemporais.

As dores, minhas, bloquearam-me o escrever.
Mas descobri que quem depende não sente
a exaltação deste sentir único que é o Viver.

E sustento-nos, nesta imagem que não mente,
aguardando que o tempo te mostre que o Ser
é aquele que perdoa e desdobra a mente.

Fotografia: Paula Silveira Costa