domingo, 26 de junho de 2016

Espiral da Saudade


O amor é a morte da respiração
abraçada pela apneia da felicidade.
É uma faca de tristeza no coração,
livre na masmorra da invisibilidade.

Amar é ajustar as velas da razão
para navegar na espiral da saudade.
É saber respeitar a dor da decisão
mesmo que ela te fira a humanidade.

A Vida foi-nos dada para ser sentida
na procura da absolvição pelo amor,
mesmo que condenada num bem maior.

E não para ser racionalizada pela dor
que na pureza dos olhares se valida,
sorrindo num doce uníssono: "É a Vida".


 Fotografia: The spiral - Paula Silveira da Costa (Página My eyes)

terça-feira, 21 de junho de 2016

Desistir


A gente não desiste do que quer.
Desiste simplesmente do que dói.
Pertenças palavras de um ignoto.
Seja de um Homem ou da Mulher,
ou daquela amizade que nos mói,
desiste-se pelo cansaço indevoto.


Desistir é não querer continuar.
É não arrostar o seu Adamastor.
É abster-se da exultação do sonhar
por um íncubo matizado de Amor.

Jamais se deve desistir do encanto da Vida
por mais que a sua razão esteja de partida.

Desistir… Nunca foi, é ou será o caminho.

 
Fotografia: Paula Silveira Costa

sábado, 18 de junho de 2016

Na clarividência do acordar


Perdoa-me!
Só te quis dizer
o que tinha para chorar.
Lágrimas presas
num eterno doer
que despejadas de defesas
fizeram as cordas vocais gritar.
Perdoa-me!
Não te quis desrespeitar,
mas a dor que me invade
rasga-me e fico sem saber
se me afundo na saudade
se me afloro na verdade
de nos ver a definhar
num amor que sabe respeitar
mas que tem de se perder.
Perdoa-me!
Mas ele nunca irá acabar.
Aliás… não há nada a perdoar.
Absolutamente nada.
Apenas a agradecer.
Não me perdoes, estás a ver.
Antes elogia-me o enlouquecer.
Por através da nossa almofada,
fazer de ti a minha fada,
e nela, de prazer, te encantar.
Perdoa-me!
Ou não! Já não sei o que escrever.
Afinal, acabei por teus lábios beijar
Tenho uma mente, alucinada,
que no algodão dessa pele amada,
tudo faz para te dar prazer.
Na tua, por aí andarei até morrer,
a sentir no sangue a fervilhar
palavras de amor ditas no olhar.
E se te elevo a cada adormecer
é na clarividência do acordar
que sei que apenas andei a sonhar.
Porque não te consigo desprender
desta alma que teima em te amarrar.
Perdoa-me!
Só te quis dizer
o que tinha para chorar.

quarta-feira, 15 de junho de 2016

A memória é um silêncio com esperança


A memória é um silêncio com esperança
que bate colérica nas muralhas da mente.
Tal como o mar, ela desgasta e avança,
levando, sem piedade, tudo à sua frente.

As fendas estão à vista de toda a gente
encalhadas nesse pontão da lembrança.
Ao longe vejo um amar inconsequente
a massacrar uma rocha alheia à mudança.

Mas se amar é adormecer na tua alma,
apesar de na minha a tua acordar calma,
então que se sonhe no frio da realidade.

Porque a dor maior que a de esquecer,
um Amor, é aquela que nos faz perder
o que se julgava ser a autêntica Amizade.


Fotografia: Paula Silveira Costa

sábado, 4 de junho de 2016

Turva existência


Existir numa turva existência
(passe o, vicioso, pleonasmo)
é ter de abraçar o marasmo
num trilho de falsa aparência.

Só ou cingido de um vil sarcasmo
sigo pela artéria da consciência.
Dando à Vida, na paz da cedência,
oxigénio para respirar entusiasmo.

O elo mais fraco, sempre, serei eu
por mais força que busque à raiz
dos beijos que a floresta nos deu.

Sem sol... perco a energia motriz.
Suspirando, neste cenário breu,
por um instante que me faça Feliz.


Fotografia: Paula Silveira Costa

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Perfeito vazio



Os dias passam e nunca mais vejo,
O dia em que me irei ver livre de ti.
Sinto-te repulsa apesar do despejo
que, de ti, dou à mente, aqui ou ali.

E se no cansaço, te alento no bocejo,
na união de um nós uno, eu te aboli.
Resignado! Vivo para além do desejo
e fortaleço o Ser que me colocou aqui.

E se o mal vem da genética que herdas
deve ser triste viver nesse perfeito vazio,
déspota, que nos causou tantas perdas.

Cego, nesse tão teu galopante fastio,
acabas por não passar de um merdas,
seu neoplasma asqueroso e doentio.


Fotografia: Paula Silveira Costa

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Há dias assim


O sonho é a futilidade do limiar
para o abismo do subconsciente.
É uma nuvem na solidão do mar
que vagueia no silêncio da mente.

Sem sol, deixei de querer sonhar
neste lugar nebuloso e abstinente.
Inerte! cheiro a brisa do tempo passar
embriagando a alma num olhar ausente.

Mas estes são os dias em que se cresce.
Os dias que transparecem a dor do fim
num momento que nos isola e adoece.

Dias que deves dizer à vida que estás afim
e na gratidão desse amor que não desvanece
exarar no pontão da memória: Há dias assim.



Fotografia: Paula Silveira Costa