terça-feira, 12 de julho de 2016

Expetativa



Somos usados para os fins tido convenientes
por quem nos circunda nesta selva humana.
As teorias relacionais são meros expedientes
para justificar a cruel subsistência na savana.

Amigos. Familiares. Cônjuges. Dependentes.
Aqui ou ali anularão no limite do seu nirvana
princípios de vida que se tornarão prurientes,
transfigurando ética numa falsa membrana.  

O superior equívoco do amor é a expetativa
que credencias em volta da palavra beijada
por quem te ajuízas ver como prerrogativa.

O da amizade é quando começares a achar
que a expetativa, que doas de forma velada,
te irá alimentar de um momentâneo julgar.

Fotografia: Paula Silveira da Costa

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Anjo sombrio


Entregue ao silêncio da exaustão,
fecho os olhos para me esquecer.
Apoio-me no muro da recordação
e descanso as asas deste sofrer.

O mar já não afaga o coração,
e o sol já não o quer aquecer.
Resta-me o sossego da solidão
para carpir o motim do perder.

As asas já não detêm a ligeireza
de me guiar ao chão da verdade.
Porém, hoje tenho esta certeza:

Sou um sem abrigo sem o rio
onde desaguava a liberdade
deste alumiado anjo sombrio.

Fotografia: Paula Silveira da Costa

domingo, 26 de junho de 2016

Espiral da Saudade


O amor é a morte da respiração
abraçada pela apneia da felicidade.
É uma faca de tristeza no coração,
livre na masmorra da invisibilidade.

Amar é ajustar as velas da razão
para navegar na espiral da saudade.
É saber respeitar a dor da decisão
mesmo que ela te fira a humanidade.

A Vida foi-nos dada para ser sentida
na procura da absolvição pelo amor,
mesmo que condenada num bem maior.

E não para ser racionalizada pela dor
que na pureza dos olhares se valida,
sorrindo num doce uníssono: "É a Vida".


 Fotografia: The spiral - Paula Silveira da Costa (Página My eyes)

terça-feira, 21 de junho de 2016

Desistir


A gente não desiste do que quer.
Desiste simplesmente do que dói.
Pertenças palavras de um ignoto.
Seja de um Homem ou da Mulher,
ou daquela amizade que nos mói,
desiste-se pelo cansaço indevoto.


Desistir é não querer continuar.
É não arrostar o seu Adamastor.
É abster-se da exultação do sonhar
por um íncubo matizado de Amor.

Jamais se deve desistir do encanto da Vida
por mais que a sua razão esteja de partida.

Desistir… Nunca foi, é ou será o caminho.

 
Fotografia: Paula Silveira Costa

sábado, 18 de junho de 2016

Na clarividência do acordar


Perdoa-me!
Só te quis dizer
o que tinha para chorar.
Lágrimas presas
num eterno doer
que despejadas de defesas
fizeram as cordas vocais gritar.
Perdoa-me!
Não te quis desrespeitar,
mas a dor que me invade
rasga-me e fico sem saber
se me afundo na saudade
se me afloro na verdade
de nos ver a definhar
num amor que sabe respeitar
mas que tem de se perder.
Perdoa-me!
Mas ele nunca irá acabar.
Aliás… não há nada a perdoar.
Absolutamente nada.
Apenas a agradecer.
Não me perdoes, estás a ver.
Antes elogia-me o enlouquecer.
Por através da nossa almofada,
fazer de ti a minha fada,
e nela, de prazer, te encantar.
Perdoa-me!
Ou não! Já não sei o que escrever.
Afinal, acabei por teus lábios beijar
Tenho uma mente, alucinada,
que no algodão dessa pele amada,
tudo faz para te dar prazer.
Na tua, por aí andarei até morrer,
a sentir no sangue a fervilhar
palavras de amor ditas no olhar.
E se te elevo a cada adormecer
é na clarividência do acordar
que sei que apenas andei a sonhar.
Porque não te consigo desprender
desta alma que teima em te amarrar.
Perdoa-me!
Só te quis dizer
o que tinha para chorar.

quarta-feira, 15 de junho de 2016

A memória é um silêncio com esperança


A memória é um silêncio com esperança
que bate colérica nas muralhas da mente.
Tal como o mar, ela desgasta e avança,
levando, sem piedade, tudo à sua frente.

As fendas estão à vista de toda a gente
encalhadas nesse pontão da lembrança.
Ao longe vejo um amar inconsequente
a massacrar uma rocha alheia à mudança.

Mas se amar é adormecer na tua alma,
apesar de na minha a tua acordar calma,
então que se sonhe no frio da realidade.

Porque a dor maior que a de esquecer,
um Amor, é aquela que nos faz perder
o que se julgava ser a autêntica Amizade.


Fotografia: Paula Silveira Costa

sábado, 4 de junho de 2016

Turva existência


Existir numa turva existência
(passe o, vicioso, pleonasmo)
é ter de abraçar o marasmo
num trilho de falsa aparência.

Só ou cingido de um vil sarcasmo
sigo pela artéria da consciência.
Dando à Vida, na paz da cedência,
oxigénio para respirar entusiasmo.

O elo mais fraco, sempre, serei eu
por mais força que busque à raiz
dos beijos que a floresta nos deu.

Sem sol... perco a energia motriz.
Suspirando, neste cenário breu,
por um instante que me faça Feliz.


Fotografia: Paula Silveira Costa